22
Nov 09

Viver Sempre Também Cansa

 

Viver sempre também cansa!

 

O Sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinza, quase verde...

Mas nunca tem cor inesperada.

 

O Mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.

 

 

As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha,

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.

 

Tudo é igual, mecânico e exacto.

 

Ainda por cima os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.

 

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe,

automóveis de corrida...

 

E obrigam-me a viver até à Morte!

 

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois, achando tudo mais novo?

 

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima de um divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas, meu amor do Norte.

 

Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com o teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

"Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela."

 

E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo..."

 

José Gomes Ferreira

 

Biografia


Escritor, poeta e ficcionista português, natural do Porto. Formou-se em Direito em 1924, tendo sido cônsul na Noruega entre 1925 e 1929. Após o seu regresso a Portugal, enveredou pela carreira jornalística. Foi colaborador de vários jornais e revistas, tais como a Presença, a Seara Nova e Gazeta Musical e de Todas as Artes. Esteve ligado ao grupo do Novo Cancioneiro, sendo geral o reconhecimento das afinidades entre a sua obra e o neo-realismo. José Gomes Ferreira foi um representante do artista social e politicamente empenhado, nas suas reacções e revoltas face aos problemas e injustiças do mundo. Mas a sua poética acusa influências tão variadas quanto a do empenhamento neo-realista, o visionarismo surrealista ou o saudosismo, numa dialéctica constante entre a irrealidade e a realidade, entre as suas tendências individualistas e a necessidade de partilhar o sofrimento dos outros.

Da sua obra poética destacam-se, para além do volume de estreia, Lírios do Monte (1918), Poesia, Poesia II e Poesia III (1948, 1950 e 1961, respectivamente), recebendo este último o Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores. A sua obra poética foi reunida em 1977-1978, em Poeta Militante. O seu pendor jornalístico reflecte-se nos volumes de crónicas O Mundo dos Outros (1950) e O Irreal Quotidiano (1971). No campo da ficção escreveu O Mundo Desabitado (1960), Aventuras de João Sem Medo (1963), Imitação dos Dias (1966), Tempo Escandinavo (1969) e O Enigma da Árvore Enamorada (1980). O seu livro de reflexões e memórias A Memória das Palavras (1965) recebeu o Prémio da Casa da Imprensa. É ainda autor de ensaios sobre literatura, tendo organizado, com Carlos de Oliveira, a antologia Contos Tradicionais Portugueses (1958).
Em Junho de 2000, foi lançada no porto a colectânea Recomeço Límpido, que inclui versos e prosas de dezenas de autores em homenagem a José Gomes Ferreira.

 

 

Entrei no café com um rio na algibeira

 

  

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

 

  Choro!

 

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este seqüestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste òdio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!

publicado por subterraneodaliberdade às 00:02

15
Jul 09

 

Parasitas

 

No meio de uma feira, uns poucos de palhaços

Andavam a mostrar, em cima de um jumento

Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,

Aborto que lhes dava um grande rendimento.

 

Os magros histriões, hipócritas, devassos,

Exploravam assim a flor do sentimento,

E o monstro arregalava os grandes olhos baços,

Uns olhos sem calor e sem entendimento.

 

E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:

Deram esmola até mendigos quase nus.

E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,

 

Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,

Que andais pelo universo há mil e tantos anos,

Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

 

Guerra Junqueiro - Freixo de Espada à Cinta, 1850-1923

publicado por subterraneodaliberdade às 21:58

08
Jul 09

 

 

A Promessa

 

      A Promessa é uma peça em três actos e três quadros de Bernardo Santareno. Escrita em 1957, numa década em que o fascismo em Portugal intensificava a sua opressão, e condicionava todas as formas de arte, A Promessa é representada pela companhia do Teatro Experimental do Porto, com a encenação de António Pedro. Após, a exibição em palco A Promessa foi proibida, ao que parece, por pressões da Igreja Católica.

    

 

     Bernardo Santareno pseudónimo de António Martinho Rosário, médico psiquiatra, natural de Santarém, em A Promessa relata o drama de um jovem casal prisioneiro de uma promessa, da qual não se pode libertar, mesmo indo contra a própria natureza humana. A libertação do casal, no final do drama, dá-se quando a pressão social e a própria natureza humana é superior à força da religião supersticiosa.

     A Promessa é, certamente, uma obra-prima do Teatro Português.

 

 

A critica:

 

     "Acontece, como me aconteceu, pegar sem fé num volume de peças de teatro de um autor desconhecido e descobrir, com deslumbramento, um grande dramaturgo português, com certeza um dos casos mais sensacionais da dramaturgia contemporânea depois do Lorca..."

 

António Pedro, em Diário de Notícias

 

     "Poucas pessoas têm tantas qualidades como Santareno, para se perderem ou salvarem, nos pântanos do talento e do êxito, na celebridade das discussões apaixonadas, no vazio total e infernal das obsessões de angelismo."

 

Jorge de Sena, em Gazeta Musical e de todas as Artes.

 

     "Depois de haver revelado ao público essa obra-prima do teatro português contemporâneo que A Promessa, de Bernardo Santareno, obra que cedo ou tarde atravessará fronteiras e terá a projecção universal que merece..."

 

Urbano Tavares Rodrigues, em Diário de Lisboa 

publicado por subterraneodaliberdade às 20:54

06
Jul 09

 

DEUS LHE PAGUE...

 

     A propósito das peças de Joracy Camargo, um notável crítico do Brasil evocou "a arte de diálogo" de Dumas Filho e de Oscar Wilde. Esse justo louvor merece-o, decerto, o grande comediógrafo, mas é apenas um dos aspectos do seu excepcional talento, desse raro talento que Procópio Ferreira, o intérprete admirável de Joracy  Camargo, não hesita em qualificar de "génio".

 

     Ouvindo representar qualquer das obras de Joracy, ou lendo-as no sossego duma hora consagrada ao espírito e à beleza, reconhecemos realmente a presença do "génio", isto é, da capacidade de criar vida, de comunicar vida e vibração a todos os personagens que surgem e se movem no palco.

 

     O público português, que aplaudiu com entusiasmo esse comovente Deus Lhe Pague... sabe que Joracy Camargo reúne em suas comédias a mais prestigiosa técnica aos mais elevados e nobres pensamentos sociais. O seu teatro pode e deve chamar-se, sem o menor exagero, "teatro de ideias", teatro que não contente em divertir ou distrair, mas que pretende e consegue sempre erguer a alma do ouvinte ou do leitor acima das mesquinharias e dos egoísmos quotidianos.

 

     Ressuma, transcende a humanidade, resplende de inteligência e vibra de profunda, embora discreta emoção contagiosa. Deus Lhe Pague... teve centenas de representações no Brasil, foi representada na Argentina em quatro teatros ao mesmo tempo, assim como obteve idêntico êxito de todos os países da América Latina onde se contam muitas edições da comédia já famosa, que foi adoptada oficialmente nas Universidades norte-americanas, como livro auxiliar no ensino da língua portuguesa.

 

     Procópio chama a Deus Lhe Pague... a maior obra cultural do teatro brasileiro. Opinião de singular importância, vindo, como vem, do actor exímio, que não tem rival no seu país nem em toda América do Sul.

    

    Excerto de Deus Lhe Pague...

 

Mendigo: Na sua opinião. O que o povo quer é a coisa mais simples deste mundo.

 

Péricles: Qual é?

 

Mendigo: A supressão de uma palavra do dicionário.

 

Péricles: Qual?

 

Mendigo: Miséria!

 

Péricles: Só isso?

 

Mendigo:

 

(..)

 

Péricles: E o egoísmo?

 

Mendigo: O egoísmo é o grande obstáculo! É o castelo feudal em cuja arca está guardada essa palavra abominável mas necessária - Propriedade!

 

Péricles: Se não me engano, pela sua maneira de falar, o senhor é comunista!

 

Mendigo: Psiu! Silêncio! Comunismo é palavra que quer entrar para o dicionário com escalas pela polícia...

 

Péricles: Então, é por isso que toda a gente tem medo dessa palavra?...

 

Nancy: E haverá razão para tanto medo?

 

Mendigo: Há! O comunismo é como aquele boneco de palha de que a gente tem medo quando é criança.

 

Nancy: Não entendi.

 

Mendigo: Havia em minha casa, quando eu era pequeno, um boneco de palha, com o qual minha mãe me obrigava a dormir mais cedo. Eu tinha um terror pânico do boneco. Um dia, distraidamente, sentei-me em cima do manipanso.

 

Nancy: Que horror!

 

Péricles: Deu um salto, assustadíssimo?!

 

Mendigo: Não, Quando percebi que o esmagara, retirei-o do suplício, examinei-o bem e compreendi, por mim mesmo, que o boneco de palha era incapaz de fazer mal às crianças. Ajeitei a barriguinha dele e tornei-me o seu maior amigo.

 

Nancy: E sua mãe?

 

Mendigo: Minha mãe ficou meio encabulada. Mas fui incapaz de chama-la mentirosa. - O comunismo é o boneco de palha das crianças grandes.

publicado por subterraneodaliberdade às 00:05

01
Mai 09

Não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

 

Eu não posso senão ser

desta terra em que nasci.

Embora ao mundo pertença

e sempre a verdade vença,

qual será ser livre aqui,

não hei-de morrer sem saber.

 

Trocaram tudo em maldade,

é quase um crime viver.

Mas, embora escondam tudo

e me queiram cego e mudo,

não hei-de morrer sem saber

qual a cor da liberdade.

 

Jorge de Sena

publicado por subterraneodaliberdade às 23:56

06
Jan 09

Neste vil mundo que nos coube em sorte

por culpa dos avós e de nós mesmos

tão ocupados em desculpas de salvá-lo,

há uma diferença de revoluções.

Alguns sonfrem do estômago, escrevem versos,

Outros reúnem-se à semana discutindo

o evangelho da semana; outros agitam-se

na paz da consciência que adquirem

com agitar-se em benefícios e protestos;

outros param com as costas na cadeia,

para que haja protestos. Há também

revoluções, umas a sério, que se acabam

em compromissos, e outras a fingir,

que não acabam nem começam. Mas são raros

os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,

e contra quem agências e computadores

se mobilizam de sabê-los numa selva

tentando que os campónios se revoltem.

Os campónios não se revoltam. E eles

São caçados, fuzilados, retratados

em forma de cadáver semi-nu,

a quem cortam depois cabeça, mãos,

ou dedos só (numa ânsia de castrá-los

mesmo depois de mortos) e o comércio

transforma-os logo num cartaz romântico

para quarto de jovens que ainda sonhem

com rebeldias antes de se empregarem

no assassinar pontual da sua humanidade

e da dos outros, dia a dia, ao mês,

com seguro social e descontando

para a reforma na velhice idiota.

Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!

 

Jorge de Sena

publicado por subterraneodaliberdade às 22:29

03
Jan 09

Este é o local, o dia, o mês, a hora.

O jornal ilustrado aberto em vão.

No flanco esquerdo, o medo é uma espora

fincada, firme, imperiosa. Não

espero mais. Porquê esta demora?

Porquê temores, suores? Que vultos são

aqueles, além? Quem vive ali? Quem mora

nesta casa sombria? Onde estão

os olhos que espiavam ainda agora?

O medo, a espora, o ansiado coração,

a noite, a longa noite sedutora,

o conchego do amor, a tua mão...

 

Era o local, o dia, o mês, a hora

Cerraram sobre ti os muros da prisão.

 

Daniel Filipe

 

publicado por subterraneodaliberdade às 21:09

02
Jan 09

A injustiça avança a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.

Nenhuma voz além da dos que mandam.

E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

 

Quem ainda está vivo diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados.

Quem pois ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? Também de nós.

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

 

Bertolt Brecht

publicado por subterraneodaliberdade às 21:52

01
Jan 09

 

Os antigos deuses pagãos - isto é segredo -

Foram os primeiros cristãos convertidos

Iam através dos bosques de carvalhos pardos, ao encontro das multidões,

Resmungando orações populares e fazendo o sinal da cruz.

 

Ao longo de toda a Idade Média

Instalavam-se como que distraídos nos nichos das casas de Deus

De todas as populações necessitadas de figuras divinas.

 

E no tempo da Revolução Francesa

Foram os primeiros a usar as máscaras douradas da razão pura:

Soberanos conceitos,

Pairavam, velhos sugadores de sangue e falsificadores de ideias,

Sobre o dorso curvado da multidão trabalhadora.

 

Bertolt Brecht

publicado por subterraneodaliberdade às 22:59

24
Jan 08

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»



Fernando Pessoa in Mensagem

publicado por subterraneodaliberdade às 22:44

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