30
Dez 07

Faço referência à  obra prima de Cervantes , D. Quixote, mais como homenagem porque julgo que quanto à sua divulgação e apreciação nada tenho a acrescentar.

 

No entanto, deixarei uma nota sobre este fabuloso livro, obra prima da literatura mundial.

 

A leitura de D. Quixote é obrigatória porque para além de ter componentes importantes de um romance: bem escrito, bem estruturado, humor, drama tem uma mensagem que considero de grande valor e imprescindível para os dias de hoje.

 

 

Cervantes, com a criação do duo de sucesso -  D. Quixote e Sancho Pança - duas personagens de formação de carácter antagónica diz-nos como deve ser construído o homem e a sociedade.

 

O homem e a sociedade transportam em si a componente do ideal, social - o ser (D. Quixote) e a componente do material, económica - o ter (Sancho Pança), não há homem nem sociedade que seja despida de social e material, do ser e do ter, por isso Cervantes põe D. Quixote e Sancho Pança a caminhar lado a lado, mas atenção D. Quixote vai sempre um passo à frente. 

 

 

publicado por subterraneodaliberdade às 19:03

21
Dez 07

Início o meu blog sobre literatura com uma obra de Jorge Amado - Os Subterrâneos da Liberdade - não só por se tratar de uma obra de grande qualidade e imprescindível para um bom leitor mas porque serviu de inspiração para o nome do meu blog principal.

 

A obra é composta por três volumes distintos mas que se completam - Os Ásperos Tempos, Agonia da Noite e A Luz no Túnel .

Esta trilogia é o relato da vida brasileira e do seu povo, e a luta resistente do Partido Comunista Brasileiro ao Estado Novo instaurado pelo ditador Getúlio Vargas.

Assim, a luta do povo brasileiro e a resistência do PCB durante o Estado Novo constitui o tema fundamental da trilogia.

Os Ásperos Tempos

 

 

Os Ásperos Tempos é o primeiro romance da trilogia. O instaurar da ditadura, o recorte das forças políticas, os ideais, o inicio da resistência, tudo isso nos é apresentado, transporto para o romance, no estilo apaixonado de quem não se limitou a testemunhar os factos, mas neles participou, pagando com o exílio a coragem do ideal abraçado e posições assumidas.

excertos:

ABAIXO O IMPERIALISMO IANQUE VIVA O P.C.B .
E de novo foi lançado em turvos pensamentos sobre o mês de Outubro e suas desagradáveis lembranças. O automóvel marchava outra vez mas Artur continuava a enxergar a inscrição subversiva. E ela relembrava-lhe a entrevista com o dirigente comunista, a precisão das palavras do moço, suas propostas de união e a perspectiva dramática que ele traçara no caso que os políticos democráticos continuassem “de olhos fechados”. Uma estranha mistura de sentimentos dominava Artur ao recordar a entrevista: um certo despeito – aquele homem ainda moço, mal vestido, saído sem dúvida dos meios operários, querendo lhe ensinar política – e uma certa admiração pela severa figura do revolucionário.

 

....

      

  Por vezes, os camaradas contam feitos heróicos de companheiros mortos em combates, de homens enfrentando a policia com uma coragem de gigantes, mas Mariana pode pensar e julgar desse heroísmo quotidiano da vida ilegal, desses comunistas, encafuados em esconderijos, que jogam sua liberdade a cada momento que não têm direito a nenhuma diversão, muitos deles não tem sequer possibilidade de vida privada, que são o corpo e o sangue do Partido, a cabeça da classe operária. Ela conhece o seu dia-a-dia de anónimos heroísmos, ela se pergunta a si mesma o que deve fazer para ser digna companheira de tais homens, para ser digna mulher de João que a espera, que tem uma pergunta a lhe fazer. Ah!, seu Partido, aquele Partido pelo qual seu pai dera a vida, pelo qual tantos homens abandonam a segurança e o conforto, a claridade do dia e o direito de andar nas ruas livremente, como ela ama a esse Partido perseguido e odiado que ela se acostumou a ver caluniado, a esse Partido que ela se acostumou a ver acordado na hora que chega a madrugada.....

Agonia da Noite

As personagens inesquecíveis (João, Mariana, Gonçalão , Ruivo...) reaparecem aqui envolvidas na mesma acção que se vai desenvolvendo em novos episódios de luta.

Palpitantes da vida que Jorge Amado lhes imprimiu, surgem-nos agora Doroteu e a sua negra Inácia, dramáticos e líricos de um comovente romance de amor, e heróis de uma luta colectiva que é a luta de todos os oprimidos da Terra.

Páginas empolgantes, em que se sente o confrontos da construção de sociedades distintas, dispostos na dramática luta que os contrapõe, mas onde se adivinha, uma esperança de um amanhã fraterno que nada conseguirá tirar aos que lutam por mais liberdade e justiça.

excertos:

Os passos tomaram outro rumo, ele desenhou, ao lado da inscrição, a foice e o martelo.

Guardou, na mala do automóvel, as brochas e a lata de piche. Seu paletó e suas calças estavam sujas, as mãos também. Mas ele sorria, agora estava contente consigo mesmo.

Olhou mais uma vez a inscrição por ele terminada:

“VIVA A GREVE! MORRA A POLIC ...”

“Amanhã, pensou entrando no automóvel, acompanharei o enterro do estivador assassinado”. Pisou no acelerador, tinha vontade de cantar.

...

Não matem seus irmãos!
Mas os cavalos já se encontravam em meio à massa, dispersando-a, e suas palavras perderam-se entre os gritos e os ais. Homens e mulheres invadiam as casas comerciais, os edifícios de apartamentos.
Fugiam por todos os lados. Os soldados a cavalo perseguiam os fugitivos, os investigadores agora derrubavam gente com as coronhas dos revólveres. Marcos de Souza e Doroteu tinham finalmente se aproximado da negra Inácia, ela respirava ainda. Entre os dois voltearam-lhe
o corpo, puseram-na de costas, viram seu rosto contraído de dor. O negro Doroteu chamou:
— Nácia ! Nácia !.
Ela entreabriu os olhos, mas logo novamente os cerrou.
Marcos de Souza disse:
— Vamos tirá-la daqui...
Só então o negro Doroteu atentou naquele homem bem vestido e a princípio o imaginou um tira, pôs-se em frente do corpo de Inácia:

— Sai! É minha mulher...
— Não sou da polícia. Sou um amigo... — tivera vontade de dizer “um companheiro”, mas não se atreveu.
Sua voz era tão sincera, que Doroteu não discutiu.

 

A Luz no Túnel

 

 

 

O título o parece sugerir que o livro nos irá desvendar o alvorecer da luz da liberdade para que se dirige o esforço e sacrifício do herói colectivo PCB em que se encarna a luta do povo.

No entanto, e à primeira vista, tudo parece ir em sentido contrário.

Mas há, efectivamente, uma luz a brilhar no meio das trevas, uma teimosa luz de esperança que se sente no grito da mulher, que se sobrepõe à derrota aparente da causa defendida pelo homem (L. C. Prestes) que vamos encontrar sentado no banco dos réus num julgamento que deveria por termo à luta e resistência do povo e do Partido Comunista.

excertos:

Uma certa agitação percorre os assistentes: murmúrios, gente procurando colocar-se melhor, e logo depois um silêncio profundo e completo. Mariana estende a cabeça: o presidente do Tribunal, a voz quase inaudível, acaba de dar a palavra a Prestes.

E a voz de Prestes se eleva, rica de amor e de verdade, cada palavra soando como uma mensagem de esperança e cer­teza, partindo daquela sala policiada de Tribunal para os mais distantes recantos do Brasil. Mariana sente-se arrastada por aquela voz, é a voz vitoriosa do Partido sobre a reação e o terror:

“Eu quero aproveitar a ocasião que me ofe­recem de falar ao povo brasileiro para render homenagem hoje a uma das maiores datas de toda a história, ao vigésimo-terceiro aniversário da grande Revolução Russa que libertou um povo da tirania...”

...

Ela sabe apenas que são os inimigos derrotados pela con­duta comunista de Prestes, aqueles que o queriam desmora­lizar ante o povo, os que haviam sonhado terminar com o prestígio do Partido, com o amor do povo a Prestes.

Por um instante, subitamente, Prestes liberta-se dos policiais, volta-se para o povo, abre a boca para falar. Mas novamente atiram-se sobre ele, Mariana não resiste mais e grita: ,

— Viva Luís Carlos Prestes!

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Grande romance de um grande escritor, Os Subterrâneos da Liberdade bastaria, só por si, para imortalizar no mundo da literatura o nome de Jorge Amado.

 

publicado por subterraneodaliberdade às 21:25

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