06
Jan 09

Neste vil mundo que nos coube em sorte

por culpa dos avós e de nós mesmos

tão ocupados em desculpas de salvá-lo,

há uma diferença de revoluções.

Alguns sonfrem do estômago, escrevem versos,

Outros reúnem-se à semana discutindo

o evangelho da semana; outros agitam-se

na paz da consciência que adquirem

com agitar-se em benefícios e protestos;

outros param com as costas na cadeia,

para que haja protestos. Há também

revoluções, umas a sério, que se acabam

em compromissos, e outras a fingir,

que não acabam nem começam. Mas são raros

os que não morrem de úlcera ou de pancada a mais,

e contra quem agências e computadores

se mobilizam de sabê-los numa selva

tentando que os campónios se revoltem.

Os campónios não se revoltam. E eles

São caçados, fuzilados, retratados

em forma de cadáver semi-nu,

a quem cortam depois cabeça, mãos,

ou dedos só (numa ânsia de castrá-los

mesmo depois de mortos) e o comércio

transforma-os logo num cartaz romântico

para quarto de jovens que ainda sonhem

com rebeldias antes de se empregarem

no assassinar pontual da sua humanidade

e da dos outros, dia a dia, ao mês,

com seguro social e descontando

para a reforma na velhice idiota.

Ó mundo pulha e pilha que de mortos vive!

 

Jorge de Sena

publicado por subterraneodaliberdade às 22:29

03
Jan 09

Este é o local, o dia, o mês, a hora.

O jornal ilustrado aberto em vão.

No flanco esquerdo, o medo é uma espora

fincada, firme, imperiosa. Não

espero mais. Porquê esta demora?

Porquê temores, suores? Que vultos são

aqueles, além? Quem vive ali? Quem mora

nesta casa sombria? Onde estão

os olhos que espiavam ainda agora?

O medo, a espora, o ansiado coração,

a noite, a longa noite sedutora,

o conchego do amor, a tua mão...

 

Era o local, o dia, o mês, a hora

Cerraram sobre ti os muros da prisão.

 

Daniel Filipe

 

publicado por subterraneodaliberdade às 21:09

02
Jan 09

A injustiça avança a passo firme.

Os tiranos fazem planos para dez mil anos.

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.

Nenhuma voz além da dos que mandam.

E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo.

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem:

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos.

 

Quem ainda está vivo diga: nunca.

O que é seguro não é seguro.

As coisas não continuarão a ser como são.

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados.

Quem pois ousa dizer: nunca?

De quem depende que a opressão prossiga? De nós.

De quem depende que ela acabe? Também de nós.

O que é esmagado, que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.

E nunca será: ainda hoje.

 

Bertolt Brecht

publicado por subterraneodaliberdade às 21:52

01
Jan 09

 

Os antigos deuses pagãos - isto é segredo -

Foram os primeiros cristãos convertidos

Iam através dos bosques de carvalhos pardos, ao encontro das multidões,

Resmungando orações populares e fazendo o sinal da cruz.

 

Ao longo de toda a Idade Média

Instalavam-se como que distraídos nos nichos das casas de Deus

De todas as populações necessitadas de figuras divinas.

 

E no tempo da Revolução Francesa

Foram os primeiros a usar as máscaras douradas da razão pura:

Soberanos conceitos,

Pairavam, velhos sugadores de sangue e falsificadores de ideias,

Sobre o dorso curvado da multidão trabalhadora.

 

Bertolt Brecht

publicado por subterraneodaliberdade às 22:59

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